Silêncio e Ambiente de Trabalho

Realizar uma cirurgia, por mais simples que seja, não é uma tarefa simples. A equipe deve direcionar seus esforços, habilidades e conhecimentos em prol de uma causa comum: terminar com sucesso aquele trabalho, que no exemplo citado o resultado seria uma pessoa com um problema de saúde resolvido (ou pelo menos um alívio), até mesmo podendo salvar uma vida.

Estudar, assistir à um filme, cortar as unhas, parafusar – tarefas que até certo ponto são comuns e triviais para a maioria de nós.

Todo e qualquer tipo de trabalho / esforço exige concentração. Até mesmo para nossas necessidades fisiológicas (urinar e defecar) é necessária a tal “concentração”.

Tem gente que faz cara feia, morde os lábios, coça a cabeça, fala mentalmente algumas palavras profanas, olha fixamente para um ponto, etc, cada qual com sua técnica para tentar se concentrar. Existem pessoas que se concentram com mais facilidade, outras nem tanto. Talvez eu seja um destes, dentre muitos, que não tem tanta facilidade de se concentrar.

Quando era mais novo, meu pai tinha uma oficina, onde tubos de metais eram cortados com uma serra, fosse ela manual ou elétrica. Ali o martelo também tinha seu espaço reservado, assim como solda e outros instrumentos “barulhentos” que qualquer serralheria comum possui.

Essa oficina ficava nos fundos da casa, e a minha cama se encontrava do lado da janela. Bom, não tinha muito espaço para mudar de lugar a cama, também não podia mudar de lugar a oficina. Um protetor auricular seria uma alternativa. Nunca tinha visto em minha vida, então nem sabia o que era isso (não, ninguém usava protetor ao utilizar estes tipos de ferramentas “barulhentas” na oficina). Com o tempo consegui me acostumar aos barulhos e até dormia. Não era o mesmo resultado de dormir em um ambiente favorável, por exemplo, silencioso. O barulho incomodava, mas não era uma coisa insuportável.

De qualquer modo, um ambiente silencioso proporciona um melhor nível de concentração e um rendimento melhor na tarefa a ser realizada.

Cirurgia, Mário e afins

Esses dias estava assistindo a um programa na televisão que mostrava o dia-a-dia de médicos que atuavam nas ambulâncias, em casos de emergências (Ex.: SAMU). Uma coisa que quero destacar é a de que, mesmo em situações extremamente complicadas, não havia entre a equipe gritos solicitando ajuda ou instrumentos, nem ataques de desespero, “só” por quê o cidadão estava tendo convulsões ou uma parada cardíaca. Admiro o modo como mantém a calma. Lógico que a adrenalina está em campo, porém eles a canalizam, mantendo o foco, tirando proveito e utilizando-a do melhor modo possível.

Com certeza seria estranho (não consegui colocar uma palavra melhor) presenciar um médico, no meio de uma cirurgia, com sua equipe capacitada, soltar vários gritos, pedindo o bisturi, algo como: “O Mário, me dá aí o bisturi, rápido, MÁRIO! RÁPIDO, O PACIENTE TÁ PERDENDO MUITO SANGUE!”, ou “OH MEU DEUS! UMA PARADA CARDÍACA! MÁRIO, ENTUBA QUE ELE TÁ MORRENDO! VAI LOGO ANTES QUE ELE BATA AS BOTAS!!!”. Além de atrapalhar o bom andamento da cirurgia, não seria ético e muito menos respeitoso para com o paciente e para os demais presentes.

Para fazer um bom trabalho, precisamos de concentração. Algumas coisas, como o silêncio, levar em consideração o trabalho dos colegas em volta, não interrompê-los no meio de um “trabalho cirúrgico” para dizer como foi muito boa aquela sua viagem. Solicitar à uma equipe que se localiza à mais de dez metros de distância que verifique determinado problema, algo como: “O MÁRIO, VERIFICA AÍ O CASO DO CLIENTE XYZ-ABC!!! PARECE QUE DEU PROBLEMA!!!” seria um tanto quanto desconfortável para aqueles que não estão envolvidos. Não seria melhor ir até a mesa do coitado do Mário e dizer somente para ele este assunto, ou, caso necessário, utilizar o ramal? O bom senso cairia bem nesta situação.

Gritar, correr para todos os cantos, falar para todos (inclusive o pessoal da limpeza!) de que existe um problema no sistema do cliente XPTO não ajudará na resolução do problema. Caso queira conversar sobre o seu bichinho, sobrinho, amiguinho, verifique se sua conversa não está afetando aqueles que estão trabalhando. Seria mais prudente ir até um lugar reservado e assim colocar o “papo em dia”, não é mesmo?

Lendo este artigo – que recomendo fortemente a leitura – encontrei esta ilustração muito boa, que compartilho aqui.

Conta-se de um pai que, conversando com o seu filho, de repente ouve um som, que identificou ser de uma carroça, mas ele enfatizou que se tratava de uma carroça vazia, mesmo não a vendo. Seu filho, curioso, perguntou como ele identificou o fato da carroça estar vazia, somente por ouvi-la, foi quando seu pai explicou que ele conhece carroças vazias pelo som que produzem, pois fazem muito barulho quando não levam nada consigo.

Desta ilustração, pode-se inferir que muitas pessoas que fazem muito barulho, o fazem, porque estão vazias e precisam de auto-afirmação, auto-estima e carecem de realização pessoal. A solução, insta salientar, o que não consideram é o fato de que a solução não está em obrigar aos presentes ouvi-los, tirando deles o direito de escolha.

Fonte: Educação e Ética no Ambiente de Trabalho

Certo conselho diz: “Há um tempo para ficar quieto, tempo para falar… tempo para se alegrar e tempo para chorar”. Não somos robôs que fazem exatamente aquilo que fomos programados, mas existe um determinado tempo para se fazer determinadas coisas.

Existe um problema/tarefa urgente a ser corrigido/realizado? Mantenha a calma, não saia expelindo fogo pelas “ventas”, direcione a tensão para se concentrar e faça um bom trabalho. Se depender de outros, mantenha o profissionalismo e solicite educadamente, seguindo os processos que sua empresa instituiu e sempre utilize o bom senso. Nestas horas, lembrar-se da Regra Áurea pode salvar vidas: “Não faça aos outros o que não gostaria que fizessem com você”.

“Sempre fui assim, vou morrer assim”

Às vezes a pessoa tem um tom de voz mais alto que o comum. Isso pode ser tanto uma característica física da pessoa quanto o ambiente em que foi criada. Não é só porque o Luciano Pavarotti tinha uma voz de derrubar estádios que ele a usáva deste modo todo o tempo.

Também não quer dizer que o se o pai é um ladrão o filho também será. As pessoas podem mudar ou não seguir determinado proceder, se assim o quiserem. Basta esforço, muito esforço!

“Em terra de algazarra, que tem sala própria é rei”

Outro caso interessante, muito comum na área de TI.

Em casos em que silêncio é um luxo que não tenho, simplesmente coloco um fone de ouvido, sem música nenhuma. Isso é suficiente em alguns casos, porém, em outros, nem mesmo o volume no nível máximo consegue aliviar. Existem fones que conseguem bloquear a maior parte do barulho externo, outros tem isoladores, semelhantes ao protetores auriculares. Porém esta ainda não é a solução mais adequada.

Não sou mestre no assunto (nem há a necessidade), mas estes são alguns conselhos que me são úteis. Este foi o meu manifesto “Silêncio, por favor.”

E você, também enfrenta/enfrentou situações semelhantes? Tem dicas? Tem lamúrias ou um poema? Então deixe escrito nos comentários!

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This entry was posted on Tuesday, September 14th, 2010 at 20:46 and is filed under Ambiente de Trabalho. You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed. You can leave a response, or trackback from your own site.

2 Responses to “Silêncio e Ambiente de Trabalho”

  1. Eder Says:

    Trabalhando do seu lado, imagino que sofra mais do que parece! huhuaha as vezes grito a uns metros de distancia. Mas as vezes. Sabemos das pessoas que treinam todo dia, como se houvesse um campeonato de quem faz mais barulho. Acho que poderia ser um estágio para feira, pq as vezes isto parece mais uma feira que um departamento de TI, ou mesmo um departamento!

    Ótimo manifesto. Por sorte, consigo me concentrar com barulho na maioria das vezes, e o barulho acaba incomodando as vezes!

    []
    Eder

  2. admin Says:

    Obrigado pelo compadecimento! =P

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